Curiosidades
Alceu
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em 15/10/2009 18:53
O profeta do paraíso e os escravos criminosos
Se São João Bosco sonhava com Brasília, o governador Fleury sonhou com Foz do Iguaçu. Hoje, o MST é acusado de crimes. No passado, os acusados eram os escravos
José Joaquim do Carmo Júnior foi um dos presidentes provinciais (governador) que por menos tempo esteve à frente do governo do Paraná: apenas três meses, entre março e junho de 1864.
Nascido no Rio de Janeiro em 29 de agosto de 1832, ali morreu em 16 de agosto de 1915.
Seu sucessor, André Augusto de Pádua Fleury, no entanto, embora tenha administrado o Paraná por apenas dois meses depois de substituir a Carmo Júnior, retornaria mais tarde ao governo em outras ocasiões, faria uma excelente administração e passaria à história como o governador que projetou Foz do Iguaçu para ser a cidade que hoje é.
Tendo governado pela primeira vez entre junho e agosto de 1864, Fleury preocupava-se muito com a navegabilidade dos rios paranaenses e na integração com o Mato Grosso, o que não surpreende quando se sabe que ele nasceu em Cuiabá, em 9 de abril de 1830.
O Paraná que Fleury começou a administrar em 1864 contava naquela década com uma população total de 99.087 habitantes (ou "almas", como se dizia na época).
Desse total, 10.643 votaram nas eleições de 1865, "distribuídos por 329 quarteirões, os quais constituem 5 colégios com 200 eleitores".
Os escravos e os crimes
Um relato dos crimes registrados no Paraná feito pelo governador Fleury à Assembleia Legislativa pode dar uma ideia de como andava a segurança pública naquela época.
Se hoje a droga está na origem da maioria dos crimes, na época as questões de propriedade e família eram as motivações principais.
"A 31 de janeiro, nas cercanias de Ponta Grossa, o comerciante Manoel de Camargo Penteado foi acometido (atacado) em sua barraca por Antônio, seu escravo, e por um espanhol de nome Félix Pires, desfechando-lhe este dois tiros e chegando a feri-lo. Em seguida os agressores saquearam-lhe um baú, subtraindo papéis, ouro, e tudo quanto nele encontraram. Processados, foi o escravo absolvido pelo júri e Pires condenado a um ano de prisão".
"A 25 de agosto, na cidade de Paranaguá, um marinheiro do patacho argentino Thereza foi assassinado por outro da mesma embarcação, de nome Manoel da Cunha Pinto, português".
Fleury notou em seu relatório que os crimes cometidos em família figuravam também com destaque nos registros policiais: fratricídios (irmão matando irmão) e mortes de esposas pelos maridos eram comuns.
Curioso é o fato de que todos os suicídios e tentativas de suicídios foram cometidos por escravos. Ocorreram ainda mortes por afogamento, queda de cavalo e de árvore.
Também interessante é que o número de deserções ocorridas nas forças policiais e militares no período superara o número de homicídios.
"Empório do comércio"
O cerne da atuação governamental de Fleury estava ligado à busca pelo aproveitamento dos rios para a navegação. Os engenheiros José e Francisco Keller haviam iniciado, por orientação do governo imperial, estudos para detalhar as possibilidades dos trechos considerados viáveis dos rios Ivaí e Paranapanema, por exemplo.
Foi Fleury quem procurou intensificar os estudos para o aproveitamento do rio Iguaçu, levando-o a profetizar o aparecimento de Foz do Iguaçu:
- É inspiração antiga da província (...) o estabelecimento de uma via de comunicação entre o litoral e a margem esquerda do rio Paraná, abaixo das Sete Quedas, não só para defesa da fronteira, do lado do Paraguai e da Confederação Argentina, como para a fundação de um porto na confluência do Iguaçu, que venha a ser o empório do comércio com os Estados do Prata.
André Augusto de Pádua Fleury morreu no Rio de Janeiro em 25 de novembro de 1895.
Inspetores rebelados
Não é de hoje que os professores deixam os governadores de cabelos brancos com seus protestos e rebeldias.
O governador André Fleury se queixou aos deputados de que os educadores, "em cuja fidelidade não pode depositar confiança", estavam alheios às determinações do governo.
"É de lastimar", dizia uma autoridade, referindo-se aos inspetores de ensino, "que a mor parte desta classe de funcionários públicos manifesta pouco apreço à execução das ordens expedidas pela inspetoria geral. Suponho, porém, que a gratuidade do cargo é a causa eficiente do mal que aponto".
Ou seja: o inspetor não ganhava nada e ainda tinha que obedecer!
