Fonte: Historia da America Lataina

Criar a Ciudad Real del Guayrá foi um dos últimos feitos do primeiro governador do Paraguai, Domingo Martinez de Irala, em 1556.

Nascido em 1509, em Vergara, de origem basca, em 1535 ele acompanhou Pedro de Mendoza em sua expedição ao Prata e assim travou contato com a América do Sul, onde faria história.

E não só por ter criado a Ciudad Real del Guayrá, mas sobretudo porque ele foi o primeiro governante das Américas a ser eleito pelo voto direto.

Também há mais: Martinez de Irala foi o criador do primeiro parlamento (Cabildo) no continente, localizado em Assunção, além de ter construído prédios públicos, igrejas e também cidades, como Guayrá, às margens do rio Paraná.

O cabildo paraguaio, portanto, é um antecedente do atual Congresso Nacional brasileiro.

O Brasil foi um dos últimos países das Américas a obter a independência, e ainda assim uma independência inicialmente submetida a Portugal, em seguida à Inglaterra e depois aos EUA, de cujo "quintal" até hoje faz parte.

Isso explica porque o atual Paraguai tinha um parlamento já no século XVI e o Brasil o tenha apenas depois do manipulado "grito do Ipiranga", em 1822.  

Esconderijo

Estima-se que o topônimo Guayrá resulte de uma palavra do idioma Guarani que teria um som próximo de "quairá", com o significado de "esconderijo, local de difícil acesso", ou "intransponível", em função das Sete Quedas quanto à navegação do Rio Paraná.

Guayrá não foi a primeira cidade ordenada por Irala: antes dela, García Rodrigues de Vergara havia fundado Ontiveiros, em 1554, aproveitando uma povoação indígena pré-existente denominada Canindeyú.

Foi também atendendo a ordens do governador Martinez de Irala que o capitão espanhol Ruy Diáz Melgarejo iniciou Guayrá em 1556 na foz do rio Piquiri com o Paraná, onde também havia uma aldeia, sob o comando do Cacique Guayrá.

Ruy Diáz Melgarejo também criaria a comunidade de Vila Rica do Espírito Santo, por ordem de Juan de Caray, provavelmente em 1570, na foz do Rio Corumbataí com o rio Ivaí, em terras do Cacique Coracibera. 

Quem se espanta com os duelos verbais e as grosserias trocadas pelos políticos de hoje - Simon dizendo a Lula para calar a boca, por exemplo - se surpreenderia ainda mais com os lances da alta política naquela época.

O capitão Melgarejo governava Guayrá com mão de ferro, depois de sustentar graves conflitos com os índios, que não suportavam sua prepotência.

Figurão algemado

Combatente de tempo integral, depois de guerrear com os índios Melgarejo abriu luta em 1570 contra o próprio governo paraguaio.

O capitão era sobrinho do governador Domingo Martínez, o que demonstra a inconveniência do nepotismo desde então.

Sua oposição ao governo paraguaio decorreu de que seu parente governador morreu logo depois de ordenar a criação de Guayrá.

O novo governador, Cabeza de Vaca, pretendeu substitui-lo por um novo capitão - Alonso Riquielme.

Riquielme? Claro, sobrinho do novo governador, Cabeza de Vaca. Governador morto, governador posto. E novo sobrinho vindo para substituir o sobrinho do governador falecido.

Hoje, haveria apenas uma troca festiva de comando.

Mas Melgarejo recebeu o sobrinho de Cabeza de Vaca ao seu "delicado" jeito: aprisionou Riquielme e o manteve algemado por muito tempo.

Não só se manteve no cargo como, irritado, continuou a fazer, com mais violência ainda, a prisão e escravização dos índios, pelos sertões adentro.

"Combatiendo siempre con aquella fortuna que le dió el nombre de Capitan Invencible", no dizer de seu biógrafo Barros Arana.

Índios escravos, jesuítas expulsos

Somente em 1610 surgiram as duas primeiras reduções jesuíticas na região do Guayrá: a de Nossa Senhora de Loreto, na foz do Rio Pirapó com o Paranapanema, e a de Santo Inácio Mini ou do Ipaumbucu, na foz do Rio Santo Inácio com o Rio Paranapanema.

Entre 1612 e 1628, principalmente a partir de 1625, outras 13 ou 14 reduções foram fundadas ao longo dos Rios: Tibagi, Ivaí, Piquiri, e possivelmente Iguaçu.

Já em 1620, o território de Guayrá estava virtualmente nas mãos dos portugueses, uma vez que os bandeirantes paulistas assolavam periodicamente a região, destruindo os pueblos espanhóis e escravizando os índios catequizados das reduções jesuíticas.

O objetivo dos missionários da Companhia de Jesus era catequizar os milhares de índios espalhados pelo sertão adentro.

Para isso foram criadas treze reduções, que na verdade eram povoações para abrigar algo em torno de cem mil pessoas.

Além das reduções, existiam Ciudad Real del Guayrá e Vila Rica do Espírito Santo, cidades que serviam de apoio logístico.

"Reforma agrária"

A ideia era a de criar uma República Guarani nas terras de Castela (Espanha). O sistema implantado pelos jesuítas, nesses povoados, era uma obra civilizadora.

As igrejas construídas eram maiores e melhores que as existentes em Assunção. Os conversos (índios convertidos ao cristianismo) possuíam parelhas de bois para arar a terra e a semente necessária para o plantio anual.

Uma reforma agrária exemplar.

Além desse benefício a cada família, seus filhos tinham aulas de leitura, escrita e música. O ensino era feito no idioma Guarani e tinha cunho oficial.

No entanto, na ânsia de prear índios para vendê-los como mão-de-obra escrava nas praças de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, os bandeirantes Antônio Raposo Tavares e Manuel Preto devastaram o que, hoje, se poderia chamar de País dos Jesuítas e que o escritor Carlo Lugon chamou de "República Comunista dos Guaranis".

Fonte: Terra Brasileira

"Peça" desvalorizada

Do total de cem mil índios, a Bandeira de Raposo Tavares foi responsável pela morte de quinze mil, e pela captura de sessenta mil, ficando o restante a cargo de Manuel Preto.

Foi tão grande a oferta na praça paulista, que o preço de l00$000 (cem mil réis) por peça, valor corrente na época, caiu para 20$000 (vinte mil réis).

Peça era como se chamava o escravo naqueles tempos.

Em 1632 as últimas reduções foram saqueadas e destruídas. A Ciudad Real del Guayrá foi abandonada e posteriormente arrasada, começando o grande êxodo dos habitantes da Província del Guayrá.

Guiados pelo padre Montoya, chegam apenas 5 mil dos 12 mil fugitivos que seguiram para as missões do Rio Grande do Sul, após penosas marchas pelas selvas do futuro Paraná brasileiro.

Sua opinião:
comentou em 09/08/2009 08:47
Alceu meu querido amigo,

Seus pots são verdadeiras aulas de história !

Parabéns!!

Abração com carinho,

Bia
comentou em 09/08/2009 13:20
Alceu,

Não aprendemos nos bancos escolares esses detalhes da nossa história. Parabéns pelo post.

Beijocas
Cris