Internacional
Alceu
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em 30/05/2009 00:14
7 faces de uma obra gigantesca - Itaipu, 3: Usina foi apressada pela crise
Desde os anos 60 o País precisava de uma grande hidrelétrica, que só veio com a crise do petróleo. Mas aí a ditadura já havia endividado o Brasil, através de manobra de Paul Volker, um dos gurus de Obama
Era um tempo em que o País, grande importador de petróleo, também tinha extrema necessidade de ampliar a produção de energia elétrica.
Na medida em que o petróleo era relativamente barato e produzido em abundância nos explorados países árabes, as autoridades brasileiras descuidaram do projeto de construir a usina hidrelétrica de Sete Quedas, que seria totalmente nacional.
Mas não havia como, a partir da implantação da ditadura, em 1º de abril de 1964, exigir do governo qualquer providência nesse rumo. Toda reivindicação e protesto contra os atos da ditadura poderia significar cadeia, tortura, morte ou exílio.
Assim, se antes de 1964 a construção da gigantesca usina hidrelétrica do rio Paraná era uma proposta em debate, a partir do momento em que o governo ditatorial percebeu a complexidade da situação, construir a usina se tornou uma imposição.
A imposição prevaleceu também na mudança de local, para abaixo das Sete Quedas, contra o repúdio dos ambientalistas internacionais: seria a destruição de uma das mais extraordinárias belezas do mundo e grande e rentável atrativo turístico do Paraná.
Na época, defender uma solução melhor, que pouparia as Sete Quedas do desaparecimento, seria considerada "impatriótica".
Como a história aconteceu
Em 1966, Brasil e Paraguai se entenderam no sentido de construir uma usina binacional, mas a Argentina apresentou obstáculos e o projeto ficou mais ou menos em banho-maria.
Mas em 1973 eclodiu a grave crise do petróleo, que levou o preço do barril a alturas superiores aos 300%. Não restava outro caminho ao mundo a não ser pensar mais seriamente em outras fontes possíveis de energia.
O Brasil perdeu o bonde, embora a duras penas tenha conseguido, antes tarde que nunca, tirar combustível da cana.
A crise do petróleo aconteceu no contexto do pós-II Guerra. Resultou do embargo dos países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e Golfo Pérsico à distribuição de petróleo para os Estados Unidos e Europa.

A região petrolífera do Golfo Pérsico foi descoberta em 1908 no Irã. Aí começa a corrida: toda a região passa a ser alvo do interesse dos espertos capitalistas europeus e principalmente estadunidenses, agressivamente explorada.
Em 1960, em Bagdá (Iraque), os cinco principais produtores de petróleo (além do Iraque, Arábia Saudita, Irã, Kwait e Venezuela) fundaram a Organização dos Países Exportadores de Petróleo.
A OPEP vinha para se opor à política de achatamento de preços praticada pelo cartel das grandes empresas petroleiras ocidentais - as chamadas Sete Irmãs (Standard Oil, Royal Dutch Shell, Mobil, Gulf, BP e Standard Oil da California).
Da crise do petróleo à crise da dívida
Os três objetivos da OPEP, definidos pela organização na conferência de Caracas em 1961, eram: aumentar a receita dos países-membros, a fim de promover o desenvolvimento; assegurar um aumento gradativo do controle sobre a produção de petróleo, ocupando o espaço das multinacionais; e unificar as políticas de produção.
Para o Brasil, acomodado aos baixos preços do petróleo no passado, a crise foi devastadora. Derrubou o alto nível de crescimento, que hoje seria chamado de "padrão chinês", caindo de um pico de 9% para 4,6% em 1978.
A dívida externa saltou de US$ 17,2 bilhões em 1974 para US$ 43,5 bilhões em 1978. Que tempos desastrosos! E hoje a dívida alcançou, em abril, 193 bilhões de dólares. No geral, contando a interna, explodiu para 1,5 trilhão de reais...
Foi um desastre, de fato, porque a arrogância do governo ditatorial o levou à tentativa de manter artificialmente um alto crescimento econômico, considerando o choque do petróleo de 1973 algo como que uma "marolinha", desandando a tomar ainda mais empréstimos no exterior.
Com a oposição calada a ferro e fogo, a situação só piorou e quando a crise se agravou, em 1979, o governo brasileiro era o retrato da desgraça.
Crises combinadas: energia e dívida
Sobreveio então a crise da dívida dos anos 80 em consequência do endividamento contraído para importar petróleo e sustentar o crescimento de então - o chamado "Milagre Econômico Brasileiro".
Com a manobra de Paul Volker, presidente do Fed (uma espécie de Banco Central dos EUA), hoje um dos gurus do presidente Barack Obama, houve uma grande elevação dos juros internacionais e a dívida brasileira (atrelada à Prime a à Libor) explodiu.
No fim de 1981, a dívida externa já era de US$ 61,4 bilhões. Em 1983, ano em que o País se viu obrigado a recorrer ao FMI, o PIB encolheu 5% e a inflação chegou a 211%.

Apesar de todos os estudos e tratativas anteriores, só em 26 de abril de 1973 foi assinado o Tratado de Itaipu entre o Brasil e Paraguai. E só em maio de 1983, quando a crise já varria o Brasil de ponta a ponta, começou a entrar em operação a primeira turbina de Itaipu.
Dois anos depois, a ditadura, fracassada, entregava os pontos e o Brasil começava uma árdua jornada para superar a dupla crise: energia e dívida.
Energia de Itaipu: gerada aqui para sua casa
Artigos anteriores:
Itaipu, 2: Jango caiu (também) por causa de Itaipu
Seus posts são maravilhosos!
Vc nunca pensou em montar seu blog?
Abração com carinho,
Bia
Tal qual diz a Regina, sou apenas um "escrevinhador".
Prefiro curtir os blogs dos amigos que sabem fazer isso com qualidade, como você, Sissy, Rodrigo e demais amigos.
Excelente sua capacidade em contextualizar os fatos ocorridos com a criação do projeto, ainda que tardio e cheio de falhas, para a hidroelétrica em Itaipu. Tiveram de ser vencidas várias barreiras – inclusive de ajustes de financiadores interessados em oferecer recursos para retomá-los, logo depois, com o estúpido aumento na taxa de juros. Saiu da faixa de 5% ao ano para 20% em 1980. Os estragos na economia, além da elevação da dívida, por conta dos serviços de juros, trouxe vários outros efeitos danosos. É por isso que se afirma que a dívida já teria sido paga várias vezes.
Os EUA fizeram um acordo por conta da criação dos chamados petrodólares, que impactava apenas na dívida interna, já que para a importação do petróleo só tinha que emitir novos dólares que, por força da inconversibilidade (do dólar por ouro) imposta por Reagan, não significava nada além de “papel verde”, e que ainda atraem tantos pelo mundo.
Outro fator que fez com que os preços do petróleo continuassem elevados era a viabilização econômica que esse novo patamar possibilitava aos antigos projetos como o do Mar do Norte, da Inglaterra, que antes, com preços baixos eram inviáveis.
É um acumulo de erros que tivemos de assistir e engolir. Pouquíssimas vozes brasileiras levantavam-se contra tais absurdos e sucateamento da soberania nacional. Toda a economia e riqueza do país foi sendo entregue, a custa do enriquecimento de alguns, que perduram até hoje em nosso país, e são tratados como grandes empresários e líderes nacionais.
O governo militar trouxe – ainda – criações que se mostraram verdadeiras bombas de efeito retardado. A criação do PROTERRA, por exemplo, causou um grande dano àqueles que viviam no campo. Quando estabeleceu o direito que os trabalhadores rurais teriam sobre a terra que moravam, os latifundiários simplesmente os demitiram, para não ter de dar parte de suas áreas aos trabalhadores. Estes foram viver em cidades próximas, criando a ‘favelização’, os ‘gatos’ que exploram os trabalhadores diaristas, e a total insegurança aos trabalhadores que – até aquele momento – eram os garantidores da produção regular de alimentos.
Como forma de compensar aos proprietários foi estimulada a produção em grande escala, da soja, trigo, milho e outros produtos que permitiam a mecanização das lavouras. Todo pessoal, antes fixado nas áreas de produção teve de adaptar-se aos sub-empregos oferecidos nas cidades, obrigando as mulheres a ter emprego também para melhorar a renda da família, mesmo que a custa do abandono dos filhos à própria sorte...
Que Deus nos ajude!
Mais uma vez, Parabéns pelo excelente texto.
Abraços do
Antonio Carlos