Fonte: Wikimedia

É muito difícil para os professores explicarem às crianças porque a Guerra do Paraguai aconteceu e concluir pela vitória do Brasil quando seus resultados transmitem uma enorme sensação de derrota.

O que aconteceu, afinal? Houve a completa a aniquilação do vizinho Paraguai, o fortalecimento da Argentina (único vencedor, pois ampliou seu território e lucrou fornecendo suprimentos pagos pelos cofres brasileiros) e endividou o Brasil nos bancos ingleses, pois o conflito custou o dobro da receita do País.

Foi necessário montar batalhões de Voluntários da Pátria, pois não se pode dizer que na época o Brasil dispusesse de um Exército preparado para uma guerra.

Apesar das heróicas vitórias sobre holandeses e franceses no passado, as forças militares brasileiras só haviam combatido rebeliões isoladas nas províncias.

Para montar os Voluntários, o governador de cada província fazia a convocação, organizava, fardava e armava os batalhões.

Mesmo diante da propaganda de que o pérfido Solano López havia invadido o Brasil e era preciso reagir a essa afronta com o revide, não houve grande entusiasmo popular.

No entanto, com a guerra já declarada era preciso organizar com rapidez os batalhões, que chegaram a 57.

Mães revoltadas,

jovens foragidos

O governo provincial, diante da falta de uma resposta entusiasmada dos jovens, saía a "recrutar" combatentes nas famílias, sob a preocupada hostilidade das mães e o temor dos rapazes.

Os elementos mais fáceis de recrutar eram os caboclos e os negros, pois suas famílias não tinham "pistolões" para proteger os filhos da convocação. Mas mesmo estes, ao saber que seriam procurados, encontravam as maneiras mais criativas para simular algum problema de saúde.

Nunca houve tantos "doentes" no País como nessa época, pois havia quem simulasse enfermidades e até se mutilasse para evitar ir à guerra:

"Uns cortavam um dedo, outros quebravam os dentes, e houve até pretos que despejaram sobre o pé um reminhol cheio de garapa fervente!" (São Paulo de Nossos Avós, Raimundo de Menezes, Saraiva, 1955). (Reminhol era uma grande colher de cobre usada na produção de açúcar.)

Mas, ainda segundo Menezes, o principal recurso era a fuga: "Metiam-se pelo sertão, embrenhavam-se nas matas, preferindo, à guerra, uma vida de penúria e privações". Havia um sentimento generalizado de oposição à participação na guerra.

Caçados a laço

Quando assumiu a presidência (governo) de São Paulo, em novembro de 1866, o alagoano José Tavares Bastos, atraiu o ódio da população porque diante da recusa dos jovens ao recrutamento, ele apelou para um truque "genial".

                              Telescopium

Menezes narra:

- Por ordem do governo, fora convocada grande massa popular, sob o pretexto de passar em revista a Guarda Nacional, no edifício do quartel. Logo que notou razoável número de homens, dentro dos muros, mandou o presidente fechar todas as portas, e agarrar os moços mais prestantes, e assim conseguiu boa quantidade de "voluntários de pau e corda", como diziam os antigos. Aquilo só poderia provocar a maior revolta, como provocou. Ali aquartelados, os guardas-nacionais sofreram o diabo.

O tratamento que receberam foi dos mais humilhantes. Basta dizer que, durante dois dias, não receberam qualquer espécie de alimento. Houve um momento em que a tropa quis rebelar-se, sair para a rua e depor o presidente. Não fosse a interferência da oficialidade, que a conteve, a coisa teria sido muito séria.

O coronel-comandante-superior, que era o dr. Inácio José de Araújo, conseguiu apaziguar os ânimos: mandou comprar, por ordem do presidente Tavares Bastos, "quatrocentas roscas de vinte réis cada uma", fazendo a distribuição aos guardas, que eram em número de quatrocentos, mais ou menos. Tal episódio teve a mais dolorosa repercussão. A má fama de Tavares Bastos ganhou mundo.

Travestis oportunistas

                  Capa

O livro São Paulo de Nossos Avós, de Raimundo de Menezes (Ed. Saraiva, 1955) conta como os "voluntários da Pátria" foram para a guerra:

- A caça aos recrutas para a guerra, à medida em que o conflito se prolongava, continuou cada vez mais tenaz e violenta. Os jovens fugiam ou se escondiam, sem sequer se arriscar a sair às ruas, pois seriam apanhados pelos recrutadores do governo, que saíam munidos de laços para prender os moços e arrastá-los aos quartéis.

- Nisso, chegaram as festividades da Semana Santa, que, naquele tempo, tinham muita pompa e esplendor. Todos faziam questão de assisti-las. Não havia quem se deixasse ficar em casa. E como proceder, em tal emergência, os moços que andavam escondidos, com medo do Capitão Pimenta e do Chico Metralha?

- Tiveram, então, uma idéia, e que idéia luminosa! A coisa tem sabor de piada fina. Que fizeram os espertíssimos moços paulistanos daquela época? O seguinte, e não riam antes do tempo: mandaram comprar várias saias de seda preta e algumas mantilhas de pano, também preto e puçá de retrós de cor idêntica e, assim vestidos, enfiaram-se na procissão da Semana Santa, que saiu da Igreja do Carmo.

- Tal era a perfeição do disfarce, que iludiram meio-mundo. Os próprios recrutadores, apesar de informados do embuste, não tiveram coragem de agarrar nenhum personagem de mantilha, como suspeito.

- Era arriscadíssimo! Poderiam, por um azar, segurar respeitabilíssima matrona e empurrá-la para um lado, como sendo um dos espertalhões. E se isso acontecesse... E assim terminou a procissão, sem incidentes. Recolheu-se a multidão e, no meio dela, os embuçados também...    
Sua opinião:
comentou em 09/04/2009 00:12
Histórias desse tipo são comuns em tempos de guerra, há sempre aqueles que se recusam em atuar em defesa de seu país. Na guerra do Paraguai não foi diferente como você mostrou nesse post, mas não vejo nisso um motivo de vergonha, isso acontece em toda parte do mundo, veja como foi no Vietnã, americanos faziam de tudo para não serem recrutados, ainda sendo pior porque, não era seu país que estava sofrendo algum tipo de agressão. Normalmente os integrantes da classe mais baixa são mandados primeiro aos campos de batalha,isso faz parte da história da humanidade salvo algumas excessões, no Brasil não haveria de ser diferente. É da natureza humana, acreditar que a guerra nunca vai chegar em sua porta até que ela chegue, e os bens dos ricos sejam transformados em despojos de guerra do inimigo. Em tempos de guerra, não se faz muita coisa digna, porque na guerra não há glória, mas só vergonha! Até mesmo ao vencedor cabe o constrangimento de lamber suas próprias feridas, mas digo-lhe com certeza, que se nada tivesse sido feito na época, muito estaríamos lamentando hoje, por termos perdido uma guerra por causa da indolência e comodismo dos nossos governantes da época.Pedro II teve o pulso firme de manter as tropas no encalço de Solano Lopes até que esse fosse morto, debelando dessa maneira, o risco dele resurgir e reorganizar suas tropas, se essa mesma determinação fosse tomada pelo governo dos EUA, certamente Osama Bin Laden já estaria há muito no mundo dos espíritos.
Bom post.
Abraço.
comentou em 09/04/2009 00:13
A Guerra do Paraguai foi uma sacanagem e uma grande farsa. Aniquilaram o povo paraguaio, reduzindo uma nação próspera a miséria. Deveríamos sentir vergonha disso e não ficar comemorando a data.
comentou em 18/04/2009 08:42
Caro Guizo, tudo bem?

O Paraguai era muito avançado na época e desgraçadamente houve um genocídio que dizimou crianças, jovens, adultos e idosos.
Foi a chamada Guerra do Chaco, não é mesmo?
Boa postagem, meu caro amigo de lutas.
AbraçOCLARO