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em 11/01/2010 08:59
Governador bateu numa vaca e tomou uma séria decisão
O homem que trouxe os polacos, iniciou a iluminação de Curitiba e bolou um plano para fazer concorrência comercial aos espertos chineses
Adquiriu contornos de lenda um episódio ocorrido com o presidente provincial (governador) Adolpho Lamenha Lins logo ao chegar ao Paraná, em meados de 1875.
Não havia ainda iluminação pública nem mesmo em Curitiba. Ao tentar se dirigir à noite para a catedral, o governador trombou com uma vaca. Esse desagradável episódio teria sido o fator responsável pelo seu plano de iluminar a cidade com lampiões.
O pernambucano Lamenha Lins viria se tornar uma das figuras mais importantes de toda a história araucariana. Ele assumiu a administração em maio de 1875 e permaneceu na função até julho de 1877.
Nascido no Recife a 27 de junho de 1845, Lamenha Lins foi promotor público em Alagoas. Partidário da libertação dos escravos, foi secretário do governo e deputado provincial do Piauí, província que governou entre 1873 e 1874.
Como governador do Paraná, estabeleceu núcleos de imigração nos grandes centros, sistema que, sendo adotado pelo governo imperial, deu origem às colônias paranaenses de Santa Cândida, Orleans, D. Pedro, Tomás Coelho, Lamenha, Santo Inácio e Riviera.
Viagem em troca de estadia
Lins apostava em que o estabelecimento dos imigrantes em localidades próximas às estradas carroçáveis já existentes, como a Graciosa, garantiria o êxito do núcleo colonial agrícola.
O núcleo estaria ligado, através de uma estrada secundária (a ser construída pelos próprios colonos com os subsídios do governo), a uma estrada principal que possibilitaria a circulação de mercadorias (lenha e produtos da lavoura) para o abastecimento da cidade.
Em relatório apresentado à Assembleia Legislativa em 1876, Lamenha Lins afirmou ter mandado construir uma casa de madeira em cada lote, medindo aproximadamente 108.900 m2 cada um.
A possibilidade de cada família imigrante tornar-se proprietária de um pedaço de terra e comercializar os produtos da sua lavoura atraiu a vinda de mais famílias, às vezes incentivadas, através de cartas, pelos próprios colonos já estabelecidos
Lamenha Lins é considerado pela comunidade dos eslavos (chamados genericamente de polacos, mas, além de poloneses, também russos e ucranianos) como o primeiro governante paranaense a apostar na tradição camponesa dessa etnia como a alavanca para o desenvolvimento do Estado.
Ele havia determinado que os imigrantes cumprissem algumas condições. Eles viriam por sua conta própria, custeando a viagem da Europa ao Brasil, mas seriam sustentados até que pudessem se manter de seu trabalho na terra.
Bolsa-família com prazo fixo
Medidos e demarcados os lotes de terras de cultura nos arredores da cidade, traçadas as estradas, entregava-se um lote a cada família, com uma casa provisória, regularmente construída.
Ao colono maior de dez anos, deu-se como auxílio de estabelecimento vinte mil réis. Cada família recebia mais 20 mil réis para a compra de utensílios e sementes.
Logo que o colono se estabelecia era empregado na construção de estradas do núcleo, recebendo ferramenta necessária e ao final de um prazo essa bolsa-família dos tempos imperiais seria interrompida.
Em cada núcleo, fundou-se uma escola e edificou-se uma capela, com exceção daqueles que por muito próximo da cidade dispensavam esta construção. Além do trabalho nas estradas do núcleo, o colono também encontrava serviço nas obras públicas gerais.
Estabelecidos por esta forma, ficavam os colonos entregues à sua própria iniciativa e somente obrigados a pagar a sua dívida ao governo. Esta dívida incluía o preço das terras, mas jamais foi cobrada aos imigrantes.
O navio Sobieski trouxe imigrantes eslavos
Atritos com Santa Catarina
Mesmo sendo pernambucano, Lamenha Lins foi um dos governadores paranaenses que mais dedicadamente combateu São Paulo e Santa Catarina, que pretendiam tomar partes do Paraná.
Logo ao assumir o governo, lamenha Lins enviou ofício ao presidente provincial de Santa Catarina, João Capistrano Bandeira de Mello Filho, reclamando contra a nomeação de autoridades policiais para o Distrito dos Ambrósios, no território do Paraná, pedindo providências para que fossem respeitados os limites paranaenses.
O governante catarinense se mostrou profundamente irritado e reagiu agressivamente, provocando uma troca de ofícios e telegramas, em termos violentos, entre os presidentes das duas províncias.
Com São Paulo também houve atritos quanto aos limites entre as duas províncias, especialmente no Vale do Ribeira. Uma comissão foi nomeada com a finalidade de "solver dúvidas sempre novas a respeito e prevenir conflitos futuros", segundo a avaliação de Lins.
A comissão era chefiada pelo capitão do Imperial Corpo de Engenheiros e professor da Escola da Marinha, Felippe Hyppolito Aché, e contava ainda com os agrimensores Antônio Augusto da Costa Lacerda e Henrique Rivierre.
A comissão não conseguiu terminar os trabalhos antes do fim do mandato de Lins. E no início do século seguinte Santa Catarina conseguiria tomar posse do território Sudoeste paranaense que fazia limites com o Rio Grande do Sul.
Medo de vacina
Lamenha Lins se preocupava com a possibilidade de uma epidemia de varíola, que já havia causado estragos na saúde pública paranaense em passado recente.
Ele comemorou o fato de que durante seu mandato ocorreram apenas casos isolados, principalmente na área portuária, mas lamentava o fato de que os paranaenses não se interessavam em vacinar os filhos a não ser em épocas de desespero, quando as epidemias tornavam a vacinação em cima da hora praticamente inútil:
- Esta repugnância da parte de nossa população em aceitar espontaneamente o benefício da vacina sem dúvida provém da sua ignorância em matéria de tão vital interesse, como também de uma incúria lastimável, pois que nota-se da parte dos estrangeiros que aqui residem a maior solicitude em receber esse preservativo.
- É mister, pois, tomar-se uma providência qualquer para fazer desaparecer esse indiferentismo do povo, quando se trata de assunto de tanto interesse, quando se trata de pô-lo a coberta de um mal tão desolador, que converte-se em verdadeira calamidade pública.
Adolpho Lamenha Lins morreu em sua cidade natal, Recife, em 4 de setembro de 1881. Seu filho Bento também seria, no futuro, governante do Paraná.
Esperteza chinesa
O governador Lamenha Lins afirmou aos deputados paranaenses que a China conservava o segredo da fabricação do chá a sete chaves e assim mantinha o monopólio do comércio do produto no mundo, mas ele teve uma ideia brilhante para o Brasil entrar no mercado.
Comprou no Paraná uma chácara para a produção de vinte mil pés de chá e procurou atrair colonos chineses para produzir chá no Brasil, em função de seus conhecimentos sobre a cultura.
O pulo do gato seria observar os chineses trabalhando, absorver a técnica e lhes fazer concorrência. Os chineses jamais vieram, nem para produzir chá nem para iniciar a produção de seda, que era outro projeto de Lamenha Lins.

