Política
Alceu
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em 16/06/2009 14:42
popular
em 03/07/2009 21:54
O Dragão da Maldade
O governo passa a ideia de ser o cavaleiro do Bem que com sua armadura de luz enfrenta o dragão da maldade. Mas, na verdade, o Estado brasileiro está a serviço das "forças dinâmicas" que produziram a crise

Uma das gracinhas mais desgraçadas da política brasileira é a atitude do governo de colocar a crise como vinda lá de fora para nos magoar.
Um monstro alado que brotou no céu repentinamente, vindo para atacar nossa Pátria indefesa. E assim, ele, o governo, como um cavaleiro do Bem, com sua lança de São Jorge e a capacidade resolutiva de São Sebastião salvo dos mouros, está nos defendendo de suas crueldades.
Mas a crise é fruto da ação, omissão e situação dos mesmos setores que governam o Brasil: os grandes interesses econômicos mundiais.
Ilude-se quem acredita o governo como sendo o PT e seus aliados vendilhões, uns mensalizados, outros trocando favores por benefícios para seus apadrinhados.
O governo é controlado pelas chamadas "forças dinâmicas do mercado", nas quais quem realmente trabalha participa bem pouco, através de algumas poucas entidades de classe.
São bancos, empreiteiras e outros prestadores de serviço à União, aos Estados e municípios. São as transnacionais, os grileiros e escravocratas da terra. As grandes empresas e as máfias que se distribuem por tudo já mencionado, sub-repticiamente.
"Forças dinâmicas"
A crise é fruto, cria, filho parido justamente pelas tais "forças dinâmicas do mercado". Melhor diria "farsas demoníacas do mercado"...
O governo, ao considerá-la uma coisa feia que se deu lá longe, no hemisfério Norte, passa a ideia tola de que o cavaleiro do Bem com sua armadura de luz vai enfrentar o dragão da maldade quando, na verdade, o Estado brasileiro está justamente a serviço das "forças dinâmicas" que produziram a crise e cuja ideologia assume hoje a cara neoliberal.
Não temos a nos defender, portanto, nenhum cavaleiro do Bem com armadura reluzente e espada de luz como Luke Skywalker, mas um administrador da crise geral e das pequenas crises internas, igualmente mantidas pelas tais "forças dinâmicas", que, na verdade, são sanguessugas do trabalho humano.
Sua exploração está colocada como pano de fundo para o luto das famílias cujos entes queridos são assassinados pelo trânsito, pela poluição urbana (ar, terra, águas) e pelos esquadrões da morte do tráfico e do rancor antipobre.
Lembrando Henfil
É a raiz dos preços caríssimos que pagamos por tudo, do transporte à alimentação. É quem mais se beneficia da fenomenal arrecadação de impostos que arrancam o couro dos brasileiros, do grande palácio de Brasília ao pequeno palácio citadino.
É o adubo da corrupção, o gene da impunidade, a semente da injustiça. É o núcleo que engendrou a máquina de espoliação através do cartão de crédito, do crediário, dos juros altos, da inadimplência.
Mas a ideologia é usada para ocultar os verdadeiros manipuladores dos cordéis e a crise serve de desculpa para a incompetência administrativa, a omissão, a desídia, a tergiversação.
O saudoso Henfil certa vez desenhou uma piada de quadrinho só. Um menino ocultando um bodoque atrás de si, uma vidraça estilhaçada, a mãe olhando com ar de censura e suspeita e ele, explicando:
"Não fui eu, mãe! Foram os comunistas!"
Como agora não cola mais a velha mania de pôr tudo na vida como "culpa dos comunistas", agora a culpa é de um monstro estrangeiro, que veio lá de longe para ameaçar nossas donzelas. Seu nome é "crise". E quem a está pretensamente combatendo são os mesmos que a criaram, sustentam e lucram com ela.

