Historia de Cascavel

Hoje, maçons e espíritas estão plenamente integrados à vida comunitária, sem intolerância nem perseguições por vezes violentas e cruéis.

Já na segunda metade da década de 50, quando o País parecia viver o início efetivo da democracia, a 30 de junho de 1956, uma reunião na residência do ourives José Remi Pietsch iniciava em Cascavel as atividades da Sociedade Doutrinária Espírita Paz, Amor e Luz (Sepal).

O surgimento da Sepal era uma nova inflexão da doutrina espírita, já conhecida em Cascavel através da liderança do pioneiro Ramiro de Siqueira, que hoje dá nome a uma creche, e de um grande propagandista da ação comunitária e do esporte - o sargento José Rufino Teixeira, militar da Aviação, idealizador do Tuiuti Esporte Clube.

Mas para chegar à criação da Sepal, em junho de 1956, a doutrina espírita havia enfrentado grandes obstáculos na região. Essa história começa quando, em abril de 1918, foi destacado para Foz do Iguaçu o então soldado da Força Policial do Paraná José Vicente Ferreira (1895-1966).

De origem alagoana, ele chegou à fronteira com a esposa Celestina Eufrásia Ferreira e a cunhada Etelvina Eufrásia da Silva. Os três, que já atuavam no Centro Espírita Paz, Amor e União, de Curitiba, iniciaram atendimento doutrinário em Foz do Iguaçu com ênfase na mediunidade de cura, pois na época o atendimento médico e farmacêutico na região era extremamente precário.

Perseguição e clandestinidade

A difusão do espiritismo e o aumento do número de adeptos incomodaram. Certo dia, as autoridades receberam uma grave denúncia: os espíritas faziam macumba!

Sem investigar a veracidade da denúncia, pois na época a religião africana também sofria discriminação e era confundida com o espiritismo kardecista, a polícia proibiu os trabalhos.

José Vicente se viu obrigado a transferir as reuniões para fora da cidade e em lugar secreto, a fim de evitar maiores dissabores. Ele e os demais adeptos tinham que fazer um percurso de seis quilômetros de ida e volta a pé.

Quando a perseguição amenizou, o grupo voltou a trabalhar na cidade, em casas particulares, até conseguir fundar uma associação. Em 6 de janeiro de 1922, na residência de Ferreira, surgiu a Sociedade Espírita, que, por sugestão de Etelvina Eufrásia da Silva, tomou o nome de Centro Espírita Paz, Amor e Caridade.

Sua primeira diretoria provisória ficou constituída por José Vicente Ferreira (diretor geral), Pedro Estefanoski (presidente), Olimpio José dos Santos (vice-presidente), Demécio Zarza (secretário), Pedro Gonçalves (tesoureiro), Leocádio Correia (procurador) e Rita Benitez (zeladora).

Quando, em setembro de 1924, Foz do Iguaçu foi ocupada pelas forças revolucionárias paulistas do general Isidoro Dias Lopes, os médiuns José Vicente, Etelvina e Celestina foram obrigados a fugir para Puerto Aguirre, na Argentina, pois José Vicente era soldado do governo.

Em abril de 1925, Foz do Iguaçu foi retomada pelas forças legais e a partir de então o clima de ameaça a temor foi substituído por um constante desenvolvimento das atividades comunitárias.

Em 1945 começou a funcionar no centro espírita a Escola Particular Jorge Schimmelpfeng, com 70 alunos, dentre os quais 40 órfãos. As demais vagas foram ocupadas por alunos pobres sem recursos. Depois, voltou-se também ao atendimento à gestante carente, alfabetização de adultos e cursos profissionalizantes e decidiu expandir as atividades pela região.

"Designado espiritualmente"

"Vim de Foz do Iguaçu para formar um Centro Espírita em Cascavel. Já vim até pelo próprio plano espiritual designado para a formação do primeiro centro espírita", conta José Remi Pietsch.

Logo ao chegar, passou a contar com o apoio de várias pessoas.

"Quem não era espírita, mas que nos ajudou muito, foi o alfaiate Ítelo Webber, que conhecia uma pessoa que tinha princípios espíritas. Era outro alfaiate, Durval Hoff. Ele se declarou espírita também. Depois veio o Ramiro Siqueira, Eloísio Nunes, eu, minha esposa Neusa e meu sogro Idalino Favassa, que veio de Foz do Iguaçu, e a mãe de um sargento do Exército que era telegrafista quando abriram a estrada aqui - Mercedes Venzer de Andrade. Essa foi a primeira diretoria, os fundadores da primeiro centro espírita em Cascavel".

No ato de fundação do centro espírita, Sandálio dos Santos, um dos líderes da formação de Cascavel, leu um trecho da Bíblia.

Historia de Cascavel 

Tarquínio Joslin dos Santos tinha um bosque na atual esquina da rua Sete de Setembro com a avenida Brasil, onde reunia a família para o churrasco. Esse local, onde havia uma casa de madeira, foi emprestado aos espíritas até que Ramiro de Siqueira doou um terreno na rua Paraná, onde hoje está o Supermercado Muffato: "Ali construímos o primeiro centro espírita", recorda Pietsch.

O alfaiate Durval Hoff e Tarquínio Joslin dos Santos se declaravam "espiritualistas" para justificar o fato de não serem católicos, pois eram raros os cidadãos que não iam à igreja.

Na verdade, eles pertenciam ao clandestino Partido Comunista Brasileiro (PCB) e o "espiritualismo" foi uma forma de desenvolver atividades comunitárias abertamente sem levantar suspeitas. Durval Hoff já havia sido preso e barbaramente torturado na ditadura Vargas.

O louco benfeitor

Em 1962 seria criado o segundo centro - Sociedade Espírita Amor e Caridade. Apesar de também sofrer perseguições em Cascavel, inclusive de forma velada, superando-as com o apoio da comunidade, as contribuições dos espíritas para Cascavel foram muitas.

Participaram da fundação da Apae (atendimento aos excepcionais), da qual construíram a primeira escola. Criaram também o primeiro Clube de Mães (Maternidade da Gestante Carente). Pietsch, aliás, foi também fundador do primeiro Rotary Clube e do Country Clube, do qual também foi presidente.

Depois de diversas outras atividades ("a gente saía de uma e logo ia para outra"), Pietsch também fundou a Guarda Mirim, em 1979, ao lado do juiz Hélio Engelhart, contando na organização do movimento com a colaboração de Celso Formighieri Sperança, em sua ultima participação comunitária (morreu em 1977, antes de ver a GM formada).

Curiosamente, o mais dedicado adepto do projeto era um soldado da Polícia Militar que tinha o apelido de Pinto Louco. Apesar do apelido, era um cidadão muito querido e participante.

A Guarda Mirim surgiu para assistir os filhos dos bóias-frias. Eles saíam para a lavoura logo ao amanhecer e as crianças ficavam perambulando na cidade, envolvendo-se em problemas.

O aviador espírita

José Rufino Teixeira ficou pouco tempo em Cascavel. Era segundo-sargento e radiotelegrafista do Posto da Força Aérea Brasileira. Nascido em Balsa Nova (PR) em 1922, além de introduzir aqui a doutrina espírita, Teixeira era um entusiasta de festas e promoções esportivas.

Era querido pelos jovens e respeitado pelos mais velhos. Foi assim que reuniu as lideranças da comunidade para criar o Tuiuti Esporte Clube, em 1949. Logo depois foi transferido de volta para Curitiba, onde se casou e morreu em 1964, aos 42 anos.

Por sua vez, José Remi Pietsch não não limitou as atividades comunitárias ao princípio filosófico fundamental - praticar a caridade. Ele também criou entidades sociais como o Cascavel Country Clube e a Associação Atlética Comercial, da qual foi presidente.

Sua opinião:
comentou em 24/08/2009 16:49
Gostei muito da história, principalmente porque não desistiram de fundar o lar acolhedor. Não sei como funciona hoje, mas no tempo em que se passa o relato, a caridade era feita com muita dedicação e 'sem caridade não há salvação' Alan Kardec.

Beijocas