Saúde
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em 08/09/2009 20:12
popular
em 10/09/2009 14:27
Um paraíso: saúde tão perfeita que médicos abandonam a profissão
Para governador, clima de seu Estado-paraíso era perfeito e a população tão saudável que não precisava de médicos. Hoje, o Paraná é um dos "campeões" de mortes com a gripe A
Tendo como grande destaque de sua gestão a entrega da Biblioteca Pública do Paraná, em março de 1857, o vice-presidente provincial José Antonio Vaz de Carvalhaes assumiu o governo em setembro de 1856 e permaneceu no posto por pouco mais de um ano, até novembro de 1857.
Carvalhaes nasceu em Santos (SP) em 22 de novembro de 1823. Foi ele quem acabou com os castigos corporais para escolares, prática muito comum na época em escolas paranaenses.
Os estudantes eram castigados fisicamente não só por problemas disciplinares mas também por dificuldades na aprendizagem.
Na ocasião, Vaz de Carvalhaes fez publicar no jornal Dezenove de Dezembro a seguinte nota, na qual ainda permite castigos por má conduta:
"Fiquem desde já proscritos os castigos corporais para todos os casos de faltas meramente escolares, podendo somente ser aplicados por faltas relativas ao comportamento moral. Expeçam-se as necessárias comunicações. Palácio do Governo, 16 de outubro de 1856".
Doença zero
Se hoje, por aqui, a maior queixa da população é a falta de médicos em postos de saúde, imagine-se a situação do então governador numa capital em que ninguém achava médico sequer em consultórios particulares.
Carvalhaes descreveu a situação para os deputados provinciais, em janeiro de 1857:
- O conceito de geralmente salubre, de que goza esta Província, quando não possa ser reforçada pelo recente fato de não ter sido acometida pelo cólera, tem incontrastável documento na falta quase absoluta de médicos e boticas nos distritos de serra acima (em relação ao Litoral - NR).
- Os habitantes da capital quando atacados de moléstia grave, superior à capacidade dos experientes, têm por único remédio o médico do corpo de guarnição fixa e os medicamentos do hospital militar. Os das povoações do centro nem esse recurso possuem, arranjam-se como podem, e nem por isso a mortalidade ressente-se de semelhante falta.
- Dir-se-á, senhores, que não é a escassez das moléstias, mas à insignificância das povoações, que não suporta ainda a permanência de médicos e farmacêuticos, é devido um tal fenômeno, mas dado mesmo, o que contesto, que o aumento procede em relação às vilas do interior, não explica ela a mesma falta que se nota na capital.
- O certo é que os médicos que por aqui aparecem não param, mudam logo de profissão, sem que se possa achar para isso outro motivo além da maravilhosa salubridade do clima.
Ou seja, o clima era tão bom e saudável que os médicos abandonavam a profissão por não haver doentes, passando a se dedicar a outros afazeres...
Segurança e corrupção
Depois de presidir uma eleição renhida, o governador declarou aos parlamentares que o Paraná também andava às mil maravilhas no quesito segurança pública:
"Continua inalterável a tranquilidade pública, e nenhum receio há de que seja tão cedo perturbada (...) A ordem, pois, como acabais de ver, atravessou ilesa a crise eleitoral, e ficou para sempre desmentido esse conceito de selvageria, que as tradições sangrentas da velha comarca de Curitiba tinham, por herança, transmitido à jovem província do Paraná".
Mas Carvalhaes, que morreria em Petrópolis (RJ) em 30 de outubro de 1888, via um problema que não vai parecer estranho aos brasileiros de hoje:
"(...) penetra até as últimas camadas da população do País, o veneno da corrupção, que em tais ocasiões se infiltra nas veias do povo".
A seguir, um texto retratando o cotidiano político do Paraná "das antigas".
Era arriscado ser oposição
(Temístocles Linhares*)
Por muitos anos após a implantação da República, os destinos políticos do Paraná estiveram entregues a uma classe de políticos de carreira, sucessores de seus antepassados do tempo do Império, por conta de quem se inscrevem alguns episódios de relativa expressão, dentro do velho estilo da política brasileira.
Possuiu o Paraná grandes chefes políticos. Chefes como Vicente Machado, Generoso Marques, Xavier da Silva. Possuiu grandes cabos eleitorais nas suas frequentes lutas intervicinais.
Os partidos eram dois, como se sabe. Maragatos de um lado e pica-paus de outro. Dois grupos maciços, cada qual com seu chefe ostensivo, a cujo mando todos obedeciam, é que garantiam a base municipal da política e nesse particular o que se via aqui não destoava do conjunto nacional, com o poder municipal e os seus cargos servindo de meios para os chefes locais perseguirem e dominarem os adversários mais do que para qualquer objetivo de interesse comum local ou público.
O grupo que ficava com o Governo e lhe conseguia a confiança, é claro, era o que dispunha de mais gente, de mais correligionários, tornando impraticável a ascensão do outro, menos numeroso, mas sempre combativo, ainda que lutando em vão pela subida ao poder.
Ser oposicionista naqueles tempos, está visto, era muito mais arriscado do que hoje, que as eleições se decidem pela vontade das massas. Contudo, o mister pouco lucrativo de oposicionista, a que se referia já João Francisco Lisboa na época imperial, não faltava quem o exercesse.
Realmente, os chefes municipais, que recebiam as boas graças do Governo, não podiam contentar a todos e logo nasciam as divergências e disputas, aparecendo os mais corajosos e ambiciosos a lhes embaraçar os passos, ainda que fosse muito remota a possibilidade de mudança, a exemplo do que ocorria no Império, com as frequentes substituições de governadores nas províncias e as periódicas passagens do bastão de chefe municipal de um a outro grupo, como decorrência natural do regime parlamentar e das constantes alterações de gabinetes no governo do Centro.
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*Temístocles Linhares (1905 - 1993). Trecho do livro Paraná Vivo, 1953


