Segurança
Alceu
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em 14/09/2009 10:42
Quando ninguém quer ser policial
Soldados desertando, ninguém interessado em cargos públicos e escolas de segundo grau fechadas. Coisas do Paraná!
Um Estado em que ninguém queria ser funcionário público, nem mesmo nomeado na "faixa" pelo governador.
Por incrível que pareça, já que atualmente há uma ansiosa busca por funções públicas e nomeações a qualquer custo, esse era o Paraná durante o segundo reinado.
Ficando menos de três meses à frente da administração paranaense, no início de 1859, Luiz Francisco da Câmara Leal apenas preparou a posse do presidente (governador) José Francisco Cardoso, que viria a ser uma espécie de Roberto Requião de sua época, polêmico e sem papas na língua.
Câmara Leal, nascido no Rio de Janeiro (RJ) a 27 de julho de 1822, destacou-se na área jurídica e deixou um best seller: Apontamentos sobre Suspeições e Recusações no Judiciário e Administrativo. Morreu em Ouro Preto (MG) em 6 de dezembro de 1878.
Por sua vez, José Francisco Cardoso, ao assumir o governo do Paraná em maio de 1859, teve uma gestão muito criticada por seu estilo de tomar medidas que trouxessem economia ao governo, mesmo que extremamente polêmicas.
Ele chegou a mandar fechar como "inúteis" o que hoje seriam as escolas de segundo grau e quis obrigar os índios a se tornar agricultores.
Herança nobre
Seu estilo personalista de governar chocou os "donos" do Paraná de então, que o hostilizaram agressivamente, a ponto de provocar do governador uma frase infeliz, qualificando o Paraná como "terra de selvagens", o que lhe rendeu o incômodo apelido de Cardosinho maluco.
Aliás, Requião é chamado de Maria Louca nos murmúrios de seus ferozes inimigos, em alusão à rainha portuguesa e seus rompantes esquisitos.
José Francisco Cardoso nasceu em Santa Cruz (RJ) em 23 de março de 1830. Descendente de família nobre, seu avô, o coronel Manoel Cardoso, senhor do morgado da Vacaria em Portugal, com solar na quinta dos Cardosos em Lamego.
No governo do Paraná, Cardoso se mostrou incomodado com as deficiências da segurança pública:
- Os cargos de polícia continuam a ser dificilmente preenchidos, em consequência da grande responsabilidade que resulta de lugares tais. Esse tropeço funesto à pública administração se fará ainda sentir por muito tempo.
- Entregue aos seus múltiplos trabalhos, a nossa escassa população não suporta sem vexame o exercício de uma função policial; e se atenderdes que por amor dela se não percebe honorário algum convireis na plausibilidade dos embaraços, que cumpre remediar oportunamente.
Fugiram acorrentados
E havia muito que remediar, como se deduz da comunicação feita pelo governador aos deputados:
- Não deixarei de referir-vos que à incúria da escolta de polícia que os guardava, evadiram-se no dia 16 de novembro do ano passado (1859) o criminoso de morte Luiz Ferreira. Conhecido pelo apelido de Rato, e seu companheiro Salvador. Se bem fosse informado de que pela manhã haviam as correntes que os ligavam sofrido rigoroso exame, o certo é que a poucas braças de distância da cidade, correram ambos sem nenhuma delas!
- Todas as diligências se empregaram para o fim de capturá-los. Não se obteve, porém, resultado algum. Também por desleixo da guarda da cadeia de Guarapuava se deve a evasão de um condenado ali recluso.
Estimava-se então que o Paraná precisava de mais 70 policiais para preencher seus quadros, mas ninguém se interessava pelas vagas.
O governador investigou e descobriu nada menos que quatro motivos para ninguém se interessar em preencher as vagas existentes:
1) os paranaenses detestavam a vida militar;
2) baixo salário;
3) não havia vantagens adicionais apesar dos riscos;
4) em caso de guerra, tinham que ir combater.
Qual seria a saída? O governo propôs sair pelo Paraná afora pegando gente na marra para servir como policial.
"Viveiro inteligente"
Em sua mensagem aos deputados, o governador fez um apelo:
- Estudai nossa organização municipal ou policial, que absorve um pessoal superior às forças locais; atendei ao ônus a que se obriga sem retribuição alguma; juntai a repugnância que se vota ao exercício de qualquer função pública e dizei-me se o restará idôneo para os conselhos (de ensino) de distrito!
- Lembro-me de que, a propósito de instituições tais, o exmo. conselheiro Zacarias qualificava judiciosamente de absurdo "procurar três onde muitas vezes com dificuldade se acha um.
Diante das dificuldades para encontrar servidores públicos competentes, Cardoso dirigiu à Assembleia Legislativa esta explicação para rejeitar o recrutamento mediante concurso público:
- A ideia do concurso é quanto a mim aproveitável nos países onde o pessoal abunda e a carreira do funcionalismo público conta proteções avantajadas; mas entre nós, onde ainda é diminuto o número de indivíduos que se propõem aos empregos públicos, menor o dos que possuem habilitações idôneas, apoucados os vencimentos que percebem, e gravíssima a responsabilidade a contraem, por muito tempo, acredito não teremos um viveiro inteligente que facilite a realização do pensamento, aliás judicioso, a certos respeitos, do artigo 25 do dito regulamento (que impunha já na época o concurso).
Vacinação à força
Cardoso se indignou com a escassa procura aos postos de saúde para vacinação, atribuindo o fato "ao desleixo dos pais, tutores e encarregados da educação da mocidade, à indiferença de alguns e à imprevidência de muitos".
Por isso, pedia aos deputados que adotassem medidas enérgicas para obrigar a população a se vacinar, entendendo que "sem disposições eficazes e corretivas não creio que o serviço da vacinação prospere e menos que ofereça resultados benéficos".
Sua proposta era recorrer até à força se necessário:
- As nossas municipalidades, a quem cabe a cominação de penas e a iniciativa de posturas, de mãos dadas com a autoridade policial, poderiam coagir os encarregados da infância e reprimir tais faltas.
- A carência de comissários municipais e paroquiais tem por seu turno levado a incúria ao ponto de se tornar fatal. Trata-se de um criminoso desleixo.
É bem provável que Cardoso ficasse assustado com as atuais centenas de municípios paranaenses - na época eram 17 -, pois chegou a recomendar aos deputados que tivessem cuidado para a criação de novas "vilas", que seriam os atuais municípios:
- É mister (...) terdes muita atenção na criação de vilas. Não é assunto que vos seja indiferente e menos ainda ao governo, que luta com obstáculos na aquisição, por compra ou aluguel, de edifícios próprios para as funções das municipalidades..
Muito interessante o texto, infelizmente ainda hoje, temos policiais com baixos vencimentos, apesar da criação novas vilas mostrarem que o poder aquisitivo dos governos ampliou-se.
Entretanto, nunca sabemos onde a verba é aplicada.
Beijocas
Cris