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Enviado em 08/09/2008 09:25
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Uma visão parcial de um curso de Direito em Sampa. Lembranças da São Francisco. Do centro da cidade. São Paulo e seu coração.
Deixe um comentárioE aí, Italiano; beleza? Figura destacada do Largo de São Francisco. Identificava num piscar de olhos quem era estudante cliente oferecendo uma gravata daquele mirífico acervo. Vendia por bom preço artigos copiados à perfeição dos originais europeus, o tecido remanescia do estoque veneziano acumulado pelas viagens na antiga rota da seda. Essa figura simpática e amiga foi durante todo meu tempo lá, a referência. E o bedel. Multiplex. Exercia durante seu horário, função de mais relevo; revendedor de livros, novos ou usados, segundo o tamanho da carteira do aluno. Sabia o livro texto em uso na cadeira, informava se o professor seguia ou não o texto, para efeito das provas. Fazia cópias de capítulos; tudo para pronta entrega. Era ascensorista num edifício, no período da tarde. Imagem da iniciativa privada. Eu subia até o segundo andar, atingindo um átrio no final do corredor, duas salas, a minha é à direita, comportando cem alunos. Uma pequena multidão; esmaecida ao longo do tempo ficou restrita aos que sentaram ao meu lado. Vindos do interior: filhos de Maria, ex-seminaristas, padres, sitiantes, comerciários; da Capital: herdeiros de sírios falidos e ricos, funcionários, corretores, e um italiano legítimo – Pasquale - com um sotaque tão presente quanto seu gosto pelo estudo. Ninguém o entendia direito. A música da língua era outra, falava italiano usando gramática e sintaxe portuguesas, acrescida por sucessivos e inóspitos “dunque”. O professor de direito romano demonstrou uma didática singular. Ele foi encarregado de nos contar sobre quais escombros do antigo direito foram montados os pilares do novo cânone. Escombros? Pilares? Prolegômenos? O latim era mais presente que a maioria dos alunos. Logo na primeira semana do seu curso, o mestre foi colocado em dúvida. O instituto em questão era mesmo Romano ou seria talvez das Ordenações Manuelinas? O mestre parou, pensou e passou a falar até o final da aula no mais fluente latim. Do meu lado direito, sentou-se Dimas, mediano, magro, rosto encovado, cabelo cortado muito rente, nariz adunco, sério e objetivo. Trajava-se sem nenhum excesso. Respondia às questões utilizando seu raciocínio lógico cortante. Interessado nas aulas. Vendedor de artigos de papelaria. Recém casado, com uma filhinha de alguns meses. À esquerda, Luciano, grandão, alto, forte, gordo, um rosto pálido que contrastava muito com o negro dos seus cabelos fartos, revoltos sobre a cabeça - pequena em relação ao corpo. Filho do dirigente da maior construtora da capital. Vivia num mundo distante, freqüentava as aulas sem regularidade, profundo conhecedor de música, não precisou de nada mais. Era conhecido como Pavarotti. Logo mais adiante, defronte ao palco onde se apresentavam os professores - ora de costas para a classe, ora de costas para o quadro negro - na primeira fila; um colar de cabeças femininas, com cabelos prematuramente azuis e pertencentes ao instituto nacional da previdência social. Estudavam para aumentar seus rendimentos nas futuras provas e concursos. Uma brigada de recepção das mais distintas e atentas. Na última fila, o fundão. Habitado por centúria de rapazes de óculos, cabelos à militar, todos vestidos com abrigos de gabardine cáqui, fechados com zíper, mostrando o colarinho da camisa branca, abotoado. Não conversavam com ninguém. Via-os caminhando com passos ensaiados, agitando alguns pavilhões vermelhos ondulantes, agitados numa rua do centro, gritavam palavras de ordem. Numa parede lateral, imensas janelas com esquadrias gastas pelo tempo, vidros baços, que o tédio, perícia e imaginação faziam descortinar o glauco domo da Sé. No segundo ano. Aula de direito penal. Soubemos da existência da carteira da ordem dos advogados, para exercício da futura profissão. Dimas, indagou e soube mais; nessa carteira constam os dados do portador, um pequeno resumo da sua vida passada. Interessado, pediu exemplos de anotações. Ah, se funcionário público ou ex-presidiário, por exemplo. Durante alguns dias o lugar dele ficou vazio. Quando voltou, estava diferente. Taciturno. Perguntei se eu poderia fazer alguma coisa. Não, obrigado. Pensando bem, quero vender o meu celular, você quer comprar? Dimas o que é que há? Fala. Contou que havia sido preso, há anos atrás, por furto de um rádio. Condenado, pagou pelo seu crime, saiu de lá com um curso para assalto à mão armada. Pós - graduado. Entretanto, havia optado por formar família, trabalhar e esquecer essa bobagem. Depois daquela aula percebeu que jamais conseguiria se livrar daquela cicatriz. Estava se preparando para retomar sua profissão verdadeira. Conversei com o Pavarotti a respeito. Resolvemos ir até casa do Dimas, para tentar alguma coisa. Não o encontramos lá, a esposa nos indicou um bilhar naquela biboca do Jabaquara, onde ele costumava ficar, até tarde. Fomos para lá. Um lugar pequeno, encarapitado num barranco, com uma pequena mesa, que exigia do jogador que ficasse de fora - algumas vezes - para poder manejar o taco. Ficamos sabendo da sua decisão irrevogável de assalto a banco. Ele estava tão resoluto, como na classe, respondendo às perguntas dos professores. Encontrei dias depois a notícia no jornal; da tentativa frustrada e da sua morte bem na porta do banco. Procurei sua mulher para ajudar em algo. Não estava mais lá. Desaparecera. Contei da minha impotência ao Pavarotti. Numa troca de desabafos ele me contou: Corremos riscos, à medida que vivemos. “Viver é perigoso”, citou. Gostava de freqüentar cinemas no centro, com programação pornô. Na penumbra mantinha diversas relações sexuais, não se importando com nada mais a não ser, estar feliz. Por vários segundos consecutivos, era uma vida de sonhos, realizados por noventa minutos da sessão, duas ou três vezes por semana. Amistoso, convidou-me para assistir à orquestra Filarmônica de Berlim no sábado, no Museu Metropolitano de Nova York. Mas, hoje é quinta, não há tempo. Não se preocupe. Mas, não tenho grana, para isso. Já disse; deixa disso; não se preocupe. Mas, tenho que trabalhar, amanhã. Ele desistiu. E foi. Tempos depois soube do Luciano por um amigo. Finou-se, após a falência de seus órgãos. Durante sua agonia, a mãe passava-lhe a comida pelo vão da porta do quarto, no rés do chão. E que seus bens foram doados por testamento, para uma associação que presta ajuda aos membros da classe média. Nunca mais freqüentei aulas de direito penal. Obtive a carteira. Jamais advoguei. Ingressei no mestrado e não terminei. Amo música.
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